Agroprata: da colheita para as feiras orgânicas da cidade

Arnaldo Avelino - Produtor Agroprata
Produtor Arnaldo Avelino – Foto de Berg Silva

Conheça os desafios e o trabalho apaixonante desenvolvido pelos maiores produtores de caqui do Estado do Rio

Para cultivar caqui é preciso uma boa dose de coragem, acredite, pois esta não é uma tarefa muito fácil. Com sacrifícios, ela é feita por gente que leva o trabalho com seriedade, paixão e competência, para que o resultado seja a satisfação do consumidor. Os pequenos produtores da Associação de Agricultores Orgânicos do Rio da Prata, a Agroprata, fazem esta atividade com nobreza e o produto final reflete na qualidade do sabor.

A Agroprata é uma das maiores produtoras de caqui no Estado do Rio de Janeiro, segundo o levantamento feito pelo IBGE. Localizada no Parque Estadual da Pedra Branca, em Rio da Prata, Campo Grande – Zona Oeste da capital, atualmente, conta com 30 associados, sendo 24 agricultores, que também atuam no Circuito Carioca de Feiras Orgânicas como fornecedores e feirantes, e seis cooperadores.

A história da produção de caqui na região

O lugar onde está fixada a Agroprata tem herança de diversos povos, os primeiros moradores foram os indígenas, da tribo Picinguaba, seguido dos *negros escravizados e, posteriormente, os imigrantes europeus, especificamente portugueses e italianos. Nessa última leva, está Tiago dos Santos, um português que chegou aos 10 anos de idade e vive por mais de 60 anos na região.

Tiago trouxe as primeiras mudas que resultariam na larga produção de caquis, no Rio da Prata, nesta parte do Parque da Pedra Branca. Rita de Cássia Caseiro, diretora executiva da associação, conta que a história de sua família, que traz a agricultura no sangue, se funde à do lugar.

“Se você falar com qualquer criança daqui, ela vai saber plantar, pelo menos, um pé de tomate. Porque nós nos acostumamos, desde a infância, a vermos nossos avós, pais e tios na agricultura. A minha brincadeira, quando nova, era plantar caroço de feijão colorido que vinha no meio do feijão preto. Então, já se nasce produtor. A nossa família tem um histórico de aproximadamente 300 anos nessa região, até onde conseguimos levantar. A minha avó nasceu dez anos após a abolição da escravatura. Os pais e os avós dela nasceram aqui e daí para trás eu não consegui obter mais dados”, revela a diretora.

*Rita juntou documentos e fotos que pudessem comprovar a existência da população no local e em abril de 2017, foram certificados como comunidade remanescente de quilombolas, intitulada de Comunidade Dona Bilina do Rio da Prata.

A Agroprata

Entre os anos de 1998 e 1999, ocorreu um intercâmbio Brasil – Canadá, por meio da ONG Roda Viva, cuja finalidade era monitorar a qualidade da água nas escolas públicas. Ao pesquisarem esta região, por ter mananciais, foi levantada a importância de manter o solo saudável para preservar o bom estado da água.

Dessa forma, Madalena Gomes, uma das agricultoras locais, foi contatada pela ONG, que aprovou um projeto para implementar a produção orgânica na região (a atividade durou três anos). Madalena ficou responsável por reunir os agricultores, ao lado de um dos profissionais do campo mais antigos, o Arnaldo Avelino, de 83 anos de idade.

Neste primeiro passo, os produtores se especializaram no cultivo de alimentos orgânicos, por meio de cursos oferecidos pelo Roda Viva e certificaram seus sítios. Com um terreno cedido por Arnaldo, no parque, o projeto forneceu além de conhecimentos, materiais para viabilizar o trabalho na roça, como máquinas para estufas, roçadeiras, desidratadoras, entre outros.

Madalena e Arnaldo são os precursores da Agroprata, pois, foi por meio da iniciativa de reunir os agricultores que surgiu, aos poucos, a associação. Ela passou a existir em 2000, mas, começou a atuar de fato, após ser registrada, em 2002. Com a oficialização, a Agroprata se tornou a primeira associação de agricultores orgânicos do município do Rio de Janeiro. Em 2018, ela completa 16 anos de existência.

A associação conta com o apoio da Rede Carioca de Agricultura Urbana, movimento social em prol da agroecologia, que desempenha um papel importante que é o de reconhecimento da existência da prática agrícola no município do Rio de Janeiro. Neste processo, a rede vem desempenhando papel fundamental no apoio das ações da Agroprata.

Os agricultores da Agroprata

Os pequenos produtores do Parque Estadual da Pedra Branca constituem uma rede familiar na associação. São avós, pais, tios, primos, entre outros, que trabalham em conjunto na agricultura local. Por exemplo, Arnaldo, é pai de um dos membros da diretoria, Claudino Avelino, que também é produtor, e tio da diretora executiva, Rita de Cássia.

Eu comecei nessa trajetória, que é difícil, mas estou indo graças à Deus. A minha vida sempre foi lavoura, não tenho outra profissão. Eu já produzi banana, caqui, abacate, laranja, aipim, batata, chuchu e hortaliças. Disso tudo eu entendo um pouquinho”, conta Arnaldo.

Além dele, há outros diversos agricultores que atuam diretamente como feirantes no Circuito Carioca de Feiras Orgânicas. Entre eles estão Leonardo Pestana, que faz feira na Barra, na Tijuca, em Copacabana e no Leblon; Jorge Fernandes, que faz a feira do Meier; Luis Carlos Santana; que faz a feira do Jardim Botânico; e Claudino, que faz a feira de Ipanema.

Segundo Claudino, nas feiras existe uma troca de conhecimento entre os trabalhadores e os consumidores. “O rapaz que vende shitake fica na barraca ao lado da minha, eu falo para ele que enquanto ele dá palestra sobre cogumelos para os clientes, eu dou palestra sobre frutas e folhas que são boas para a saúde”, brinca o agricultor.

Por serem nascidos e criados na região, os trabalhadores sempre tiveram noção de preservação ambiental. Por isso, a preocupação para que não houvesse práticas que agredissem o ambiente já existia no dia a dia deles. As ações do grupo inspiraram outros agricultores e moradores para atuarem de maneira ética dentro do parque.

A colheita dos produtos

A produção de caqui, em especial o tipo rama forte, é uma espécie de 13º dos trabalhadores, por ser sazonal. A boa safra acontece durante o verão e o outono, entre os meses de fevereiro e junho. Neste período, os caquizeiros ficam repletos de frutas.

Esta época é importante para o bairro, e também para a região da Zona Oeste, porque movimenta a economia local, gerando empregos. Por exemplo, é neste momento que uma pessoa pode complementar a renda com um trabalho temporário, atuando como tirador da fruta, embalador e transportador.

O processo de colheita é feita da seguinte forma, quando está na fase de retirada do produto, ele é colhido com cuidado, do pé, e é transportado por *burros dos sítios até a Agroprata. Na associação, é feita a triagem e eles são colocados em estufas, onde permanecem por uma noite ou seis horas. Depois disso, são embalados e levados para as feiras orgânicas da cidade.

Além do caqui, o que sustenta o agricultor, de janeiro a janeiro, é a banana, principalmente a prata. O lucro principal vem desta fruta. Há também o plantio de banana d’água, banana figo e de banana da terra. Quanto a este cultivo, não há tantos desafios quanto ao do caqui, que por ser muito sensível e madurar rapidamente provoca perda de uma parte da produção.

Os cachos com as pencas de bananas são retirados com a fruta ainda verde da bananeira, no entanto, eles pesam, em média, mais de 20 quilos. Pela posição geográfica, quando os cachos são cortados, eles rolam ladeira abaixo, é preciso disposição física. Uma questão interessante desta fruta é que com a retirada do cacho, é preciso cortar a bananeira, pois não produzirá mais. Ela nasce com outra muda e, dessa forma, acontece o ciclo de colheita desse alimento. A banana, assim como o caqui, também permanece na estufa por uma noite, antes de ser preparada para as feiras.

*Em toda a história da agricultura, em Rio da Prata, sempre houve a cultura do transporte de mercadoria feita por burros, que são os meios de tração utilizados, uma vez que há caminhos que dificultam o uso de outro tipo de transporte convencional. Os animais são bem cuidados pelos produtores, devido ao senso ambiental e por estes serem essenciais ao trabalho.

Desafios

Há inúmeros desafios a serem enfrentados pelos agricultores, em diversos campos. Entre eles a necessidade da melhoria nas condições de trabalho, para que a atuação seja menos desgastante. O reconhecimento da população local para com estes profissionais é pequeno. Geralmente eles são mais conhecidos nas feiras, longes do ponto de colheita.

A perda de produtos como os caquis, também é outro obstáculo, pois eles se perdem por questões explicadas anteriormente, como o caso da maturação, ou durante o deslocamento da fruta.  Os produtores explicam que há a dificuldade em retirar o caqui do pé, devido à altura do caquizeiro e à posição geográfica na qual se encontram os sítios. Alguns deles estão a 700 metros acima do nível do mar. O transporte destes alimentos para a associação também é feito com dificuldade, pelo meio a ser utilizado e pelo caminho percorrido.

Para os alimentos chegarem às feiras orgânicas, entre seis e sete horas da manhã – horário de montagem – os produtores precisam madrugar e seguir para esses lugares por volta das três horas da manhã. “Os consumidores não fazem ideia de todo o trabalho e sacrifício realizado por estes profissionais para que os produtos cheguem até eles”, afirma Rita.

Sistema Participativo de Garantia da ABIO 

Todos os associados são cadastrados no Sistema Participativo de Garantia da ABIO (SPG). A Agroprata conta com quatro verificadores, que fazem parte da comissão de certificação, são eles: Luis Carlos Santana, Sebastião Pestana, Goreti Pestana e Madalena Gomes. Além da agrônoma responsável pela verificação, a Renata Souto. Há três anos a comissão desempenha o papel de monitoramento do trabalho dos agricultores, como garantia da qualidade do serviço.

Caquis da Agroprata
Foto Divulgação
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